Possibilidades


23/10/2008


Até mais! OU Para Vânia, com carinho.

Seis meses utilizando este endereço de blog. Não mais o farei.

Utilizarei o www.teiadetextos.blogspot.com

Utilizarei em termos. Não sei se quero continuar a viver entre o mundo real e o vitual. Algumas pessoas administram bem esse espaço. Eu não. Nasci para o real, para os livros, para o toque, para o convívio. Sinto falta das pessoas que conheço. Gosto do olho no olho.

Foi bom ter saído da loucura do orkut, msn. Há tempos não fico feito uma besta olhando para o vazio da tela do computador.

Coincidência ou não, voltei a sorrir. Sinto-me muito mais feliz!

Talvez farei boxe feminino ou kung fu, ainda não me decidi. O fato é que, meu espaço será teia de textos, um trocadilho com Téia.

Dedico este post à Vânia, leitora assídua e silenciosa que sempre fez meu msn ter um sentido prazeroso. Obrigada, Vânia. Ter ido ao teu casamento em Santa Bárbara configura em minhas lembranças favoritas.

Um dia perguntaste-me o motivo do meu blog andar tristonho. Não pude te responder. Não sei falar de mim senão por pueris metáforas. O que posso e consigo dizer-te é que a maneira como eu lido com a internet consome minha produtividade. Amplamente. Vasculho mentes. Perscruto cavernas. Perco meu tempo.

Perscrutava. Os grilhões internos romperam-se há algumas semanas. Estou feliz.

Tenho um milhão de sonhos a realizar. Sonhos que não serão desenhados na tela de cristal líquido.

Venha à minha casa. Temos muitos assuntos a conversar.

Mas, a teia fica. Afinal, um pouco de mim neste mundo ainda há permanecer.

Abraços.

Escrito por Mim às 17h35
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06/10/2008


No more, por enquanto

Não tenho tido coração, mente ou espírito para escrever.

Hoje sou um casulo que rumina letras rumo à prova do dia 17. Sou uma mistura de dez livros lidos ao mesmo tempo. Um processo silencioso que tenta arrancar de si escombros que sugiram que sou gente e não apenas um simulacro.

Não. Não estou triste. Apreensiva e ocupada. Um quê que liquidifica emoções.

Diria que até há algo de zen em minha felicidade silenciosa e introspectiva. Um quê de irritabilidade diante de cobranças que me soam desnecessárias. Neste contexto, agradeço à Karol, poderoso contraponto em um contexto produtivista em demasia.

Ah! Este texto parece uma daquelas cartas psicografadas em que o morto escritor diz no final o nome das pessoas que quer agradecer, como forma de atestar a legitimidade da autoria mediúnica.

Mas, enfim ao Indisciplinador de Sentimentos apenas sorrio e desconverso. Vou viver. Vou ler. Escrevo, logo existo. 

Escrito por Mim às 14h38
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18/09/2008


Ode às Mulheres

* Antes de mais nada, este texto não se pretende filosófico, ou intelectualizado, muito menos científico. É apenas um contentamento com a condição feminina.

 

Sempre senti um enorme prazer em ser mulher. Amo menstruar! Sim senhor! O que a maioria vê como um terrível incômodo, eu acho magnífico, pois faz parte da minha feminilidade. Deixo claro que conheço e reconheço as dores e o desconforto que esses dias trazem, mas, ainda sim, entendo como parte do meu ser, da natureza mutante, tipicamente feminina.

Ser mulher é poder flertar com o espelho sem ter medo do homoerotismo. É chorar com o espelho sem medo do ridículo.

É poder ser mãe! Ou não.

Ser mulher é ter o cabelo cumprido e cortá-los, desfilar de salto alto e reclamar do cansaço nas pernas.

Deve ser muito chato ser homem e só poder escolher a cor da cueca. Ou se ela será no estilo sunga ou box. Atire a primeira pedra a mulher que nunca ficou babando diante de uma linda lingerie e ficou elétrica pensando na cinta-liga ou no espartilho feito para arrasar, ainda que na modelo da propaganda a peça fique muito melhor!

Sinto a feminilidade pulsando em mim quando posso trabalhar fora e ainda sim ser mãe. Quando posso passar uma maquiagem, a despeito do que dizem as feministas do começo do século XX, e ler tranqüilamente um texto epistemológico. Quando vou tingir meus cabelos de loiros claros, escuros ou acinzentados e ler uma tragédia grega de Eurípedes ou Sófocles sem que me sinta inteligente ou burra demais para o texto em comparação ao cabelo tingido ou descolorido.

Que divino encantamento é vomitar incessantemente três meses consecutivos até tomando banho e depois sentir o bebê mexendo dentro de si. Ah! Nunca me esquecerei do desconforto que as duas vezes em que engravidei senti! Como nunca vou me esquecer que maravilhoso foi sentir meus filhos crescendo em meu ventre!

Amamentar! Que verbo glorioso! Verter leite!!! Eu amei quando o número do sutiã saltou do 42 para o 48! O rosto do bebê! O alívio da mamada quando produzia muito leite. Doar leite para o Banco de leite. Sentir-se Nutriz! Ah!!!! Nem deu para ficar triste com os quilos enfiados na região da cintura!

Ser mulher é deixar-se levar pelo sentimento e não ter conflito com isso. Dar-se o direito de amar intensamente, odiar intensamente e fazer beicinho se o momento for interessante para recuar.

Ao longo da história, nós mulheres pagamos um preço por sermos mulheres. Principalmente porque o mundo sempre foi visto pela ótica masculina. Não acho que o processo histórico seja dos mais belos se for considerada a violência física, psicológica e sexual a que muitas mulheres são sempre submetidas. Isso torna-nos arquetipicamente heroínas e mártires. Isso me assusta. Isso me torna forte em minha condição feminina.

Não abro mão de ser mulher em todos os recantos do meu ser. Não quero ser minimamente masculinizada. Não quero dirigir como um homem (muitas vezes referem-se assim às mulheres que supostamente dirigem bem), não quero trabalhar como um homem. Não quero sentir prazer ou desejo como um homem (outra referência masculina para a, também, suposta liberalização sexual da mulher). Quero ser mulher e louvar as diferenças existentes entre os opostos. Além de que, a sexualidade feminina é tema recente de discussão, o que me faz acreditar que há muito a ser explorado, estudado, testado (oba!!!). Para a sorte de homens e mulheres!

Quanto à mercantilização do corpo feminino, penso apenas que tudo se tornou alvo de consumo. Além de que, isso nem é tão novo. Quantas mulheres foram vendidas ao longo da história? Mudou-se a forma. A essência do comércio permanece. Que o preço seja, ao menos, alto!

Sinto quando há uma simplificação da condição feminina explícita em seriados como Lipstik Jungle ou Sex&City e fico mortificada pela eterna busca da bunda sempre em pé, da pele esticada ao extremo, das bulimias em nome de um padrão de beleza. Saudade das musas renascentistas.

Aí entra o meu senão. Que pena ser a sedução do padrão de beleza global algo que chega a mexer com o bom senso de muitas mulheres. Isso sim é pior que a escravidão de fato, pois é uma escravidão implícita, portanto, difícil de ser combatida.

O Pai dos deuses é um princípio masculino (Zeus) na mitologia grega. Mas, a Deusa do Amor é Afrodite. Princípio Feminino. Áres é o deus da guerra. Mas, a grande guerreira e deusa da sabedoria é Palas Atena...

É essencial haver os paradoxos na construção da humanidade. Assim, este canto não tem como objetivo desprezar a condição masculina. Apenas quer vibrar com todas as qualidades femininas e gritar para o mundo que igualdade não é o objetivo. E sim o respeito às maravilhosas diferenças que justamente nos fazer magnífcas. Com TPM e todo o resto!

Escrito por Mim às 18h43
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14/09/2008


Ato e potência vs Mênades

Às vezes é preciso reconhecer que somos ato e potência. Mas, é bom ter noção da impotência.

Quando a potência supera o ato, deixamos de avançar e apenas iramos em torno de nós próprios.

Quem somos enquanto olhar do outro? Quem somos enquanto olhar próprio?

Vago em minhas próprias opiniões, jocosa em meu olhar defronte ao espelho.

Explodo em emoções que, aos poucos, implodem quem eu fui e quem poderia ter sido.

Paro diante da encruzilhada que um furacão trouxe à porta de minha jangada: ser Monalisa de riso cínico; ser a Vênus nascendo sob a espuma do mar; ser a Liberdade guiando o povo, tal como o quadro de Delacroix? Quem sou? Gostaria de ser?

Ainda navego em Heráclito e flerto com a possiblidade de ser uma Mênade em busca do meu equilíbrio adorando Dioníso. Evoé!

Escrito por Mim às 20h28
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10/09/2008


Cartas de Natal II

Natal, 6 de setembro de 2008.

Este não é meu quarto. Estou no saguão do hotel sentindo-me como quem tivesse nascido há poucos dias.

Fiz coisas nesses últimos seis dias que não fiz durante toda a minha vida.

Deixei o medo e a covardia fora da minha visão de mundo como metáfora para uma nova vida quando aterrissar no cotidiano.

Os peixes que vi no fundo do mar mudaram minha percepção do que é vida. Aprender a respirar pela boca para poder utilizar o snorkel, nadar com peixinhos, admirar os corais... momentos que trouxeram uma pessoa que eu desconhecia. Ou que eu havia esquecido que existia.

Ver as dunas, sentir o vento quase me arrancar do buggy a cada descida veloz, acordaram em mim a paixão por viver. Gostar de estar viva, viver apaixonadamente... há muito tempo que me sentia um zumbi.  

Ousei até beber. E não fiquei bêbada. Levarei como lembrança desse singular momento a pinga que mais gostei: Cravo e Canela. Ia de barraca em barraca na feira do artesanato degustando a pinga. No Cactus tomei todos os dias uma caipirinha que era brinde. Meia noite caminhávamos na praia.

Tenho essa liberdade dentro de mim que é perene. Poder vivenciá-la é algo que me permite expandir os meus marizontes. Fazer do cotidiano uma viagem para que eu me reconheça enquanto ser para o devir. Em um eterno por enquanto.

Escrito por Mim às 14h38
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08/09/2008


Cartas de Natal

Natal, 1° de setembro de 2008.

Lançarei um livro intitulado Cartas de Hotel. Hahahahah. Sempre que estou em um quarto de hotel tenho essa vontade imensurável de escrever. Tenho memórias, registros escritos e narrativos de Itararé, Dois Córregos, Jaú  e agora Natal.

Nem sempre estou em férias. Mesmo aqui em Natal estou com a cabeça nos passeios e a outra no trabalho que vou apresentar.

Fui à praia? Sim. Passeamos pelo calçadão à tarde de ontem, um domingo com uma brisa adorável e um sol gostoso. Não entrei no mar. Estava cansada demais para isso. Mas, gosto da brisa que Natal tem.

Voltamos à praia durante a noite. Gosto da imagem noturna do mar, essa imensidão que nos desafia, que nos dá a consciência de nossa pequenez. Fomos em um grupo divertido, pessoas interessantes. As meninas eu já conhecia das aulas do Adenil. Cláudio e Cat foram as gradáveis surpresas que permitiram ser a noite ainda melhor.

Meus filhos não vieram. Foi difícil sentir-me feliz com uma viagem que significa tanto sacrifício para minha mãe e os meus pequenos. Meus irmãos Rita e Fernando me ajudaram. Houve um tempo em que soube de muito perto o que é solidão. A dor da solidão, a Angústia da solidão, a dureza da solidão. Ficaram cicatrizes que me dizem que não posso pedir ajuda a ninguém. Mas, penso que em alguns momentos a vida nos brinda com surpresas que nem sempre acreditamos existir.

Fernando e Rita se organizaram para ficar com minha mãe e, conseqüentemente, com as crianças. Senti algo surreal quando minha irmã veio com uma imensa sacola de roupas dizendo-me que se ao menos ela não viajava, que fossem as roupas hahahahah!

Agora estou aqui, com essa vista linda em que vejo o mar com sua espuma branca quebrando na areia. As palmeiras imperiais agitam-se molemente em meio aos carros, enquanto eu, alheia aos raios do sol que queimam lá fora,  escrevo em minha mesa de trabalho. Deveria revisar meu texto, editar o vídeo que vou apresentar, mas sou seduzida e tragada por esse pedido que vem do meu âmago e me pede para fotografar com palavras visões, sensações e sentimentos que esse momento produz em mim.

Sairemos para um passeio logo mais às onze e meia. São onze horas e ainda não pus biquíni, nem arrumei as coisas. Estou hipnotizada por este momento em que há uma total simbiose entre o que vejo, sinto e escrevo.  A escrita faz isso comigo: torna-me parte introspectiva  de um processo que até então era uma parte extensa a mim.Com a escrita há a intensidade do momento vivido multiplicado por milhões de segundo, como se cada minuto tivesse um contar diferente do tempo existencialmente aplicado ao cotidiano.

Assim, nos minutos que transcorreram desde o primeiro parágrafo do texto até agora, fui deixando de ser simplesmente Maria Ester para tornar-me uma com esse universo que nunca conseguirei definir plenamente. Simplesmente Mar ia.

Escrito por Mim às 14h59
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26/08/2008


Teogonia (de Hesíodo)

Uma das obras mais densas da Literatura Grega do período homérico e que mais me encantou foi a Teogonia do escritor Hesíodo (aproximadamente 700 a.C). A forma como ele narra os nascimentos das criaturas, inicialmente por cissiparidade, depois por relacionamentos, é impressionante! Até mesmo porque, segundo os gregos, eram as Musas que inspiravam esse conhecimento. E elas podiam inspirar tanto um conhecimento verdadeiro, quanto mentiras. O livro é ilegível sem um acompanhamento, pois a tradução tentou manter a essência dos dizeres gregos. Tive uma compreensão menos sofrível através da Cris (a já citada professora Dra. Maria Cristina Franciscato).

Há uma relação linda entre a literatura grega e o divino. Não o divino judaico-cristão que faz parte do nosso cotidiano, mas o Divino enquanto esfera de algo que está além de nossa compreensão mortal. Nada de perfeições de caráter e sim a busca pela justa medida, ainda que se corteje a loucura para chegar ao equilíbrio.

Interessante que em termos cronológicos, Hesíodo é mais ou menos próximo de Homero, portanto, ambos fazem parte da Epopéia. Neste período, todo poema épico começa com uma evocação dos deuses, das musas, pois o Aedo (poeta) não é considerado o autor do canto e sim veículo dessas musas. Como poderia um reles mortal escrever a Teogonia? Aliás, gonia vem do verbo gignomai que quer dizer vir a ser, nascer. Foi por isso que quando escrevi Teiagonia da Tristeza, foi uma forma de brincar com a minha (Téia) explicação de como teria nascido a Tristeza. É no lago dos arquétipos gregos que encontro explicações e explicações para o vir a ser, o nascimento de emoções e sensações que permeiam a complexidade humana em todas as suas variações e destemperos.

Uma das musas é Clio (Glória), a que dá revelações sobre História. Sou completamente apaixonada pela descrição do nascimento das musas. Elas foram geradas durante nove noites e Calíope (Belavoz) é quem acompanha "os reis venerandos", é a musa da poesia épica. Aliás, falando no nascimento delas, não dá para esquecer que são frutos da união de Zeus e Mnemosyne (Memória). Sim, mais uma pulada de cerca do Zeus.

Os quatro seres divinos originários são: Gaia (Terra), Tártaro, Eros e Caos.

Do Caos nasceram, por cissiparidade, Érebos e Noite (Nix).

Da Noite (Nix), filha do Caos, nascem por cissiparidade, Morte (Thánatos), Sono (Hýpnos), Sonhos (Óneiros), Escárnio (Mômos, personificação do sarcasmo), Miséria, Hespérides, Moiras, Sortes, Nêmesis, Engano, Amor (nada a ver com Afrodite), Velhice, Éris (a Discórdia).

Só nessa frase há mais poesia arquetípica que qualquer outro livro que venha a ser escrito. São os próprios sentimentos que são gerados a partir de uma entidade primordial. Os meus contos bebem disso, mas não trabalham com a mesma origem. As florestas e ranchos que Astarté e Solidão, Saudade e Tristeza permeiam são muito mais próximos. Talvez, sejam águas que corram dentro de mim. São espelhos de palavras, emoldurados a partir da busca pela compreensão do meu cotidiano.

Toda essa verborragia é fruto da minha ansiosa espera pelo segundo dia de curso sobre Êxtase e Entusiasmo - Dioniso e as Fronteiras do Eu. Semana passada, além do reencontro magnífico com o pessoal do curso de 2007, pude rever alguns sumidos de 2002, 2004. Eu estou lá. Que esteja sempre. Que os deuses e seus âmbitos permitam-me apreciar um pouco desse universo maravilhoso, ainda que não dure para sempre. E Evoé (é um brinde ao Deus do Vinho e das Tragédias - Dioniso).

Escrito por Mim às 10h10
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25/08/2008


A Carta

Bragança Paulista, 17 de fevereiro de 1992.

Querida Ester,

Que a paz do Senhor Jesus esteja contigo!

Espero que esta carta te encontre com saúde e inquietude!

A tua carta me veio dois dias após o envio. Fiquei não tanto surpreso, porém feliz. Estava com uma gripe muito forte (talvez fosse o ar de Bragança). Normalmente penso que as cartas contém as únicas palavras imortais enquanto não se as queima.

A viagem transcorreu normalmente, tive um pouco de enjôo, mas tudo bem...Chegamos aqui pelas dez e meia. Passamos pela livraria (estávamos de carro) e fomos para o Seminário. A casa estava no mesmo lugar e os matos cresceram; é interessante notar como tudo muda. E mudaram também as pessoas: teu tio foi mesmo para São Paulo!

Até agora a convivência tem sido muito boa! Oxalá assim continue! Esse é um dos maiores problemas dos seminários.

(...)

As palavras, enquanto escrevo, parece que saem de algum ponto dentro de mim; como se você estivesse agora me ouvindo e imaginando a respeito do que escrevo. Além do tempo e do espaço estão as palavras, entretanto, somente as palavras vivas que viajam além do conhecimento por estarem não carregadas de significados, mas de sentimentos.

Depois lhe conto mais novidades.

Um abração do seu amigo Emerson.

 

PS: Acho que o computador vai mesmo para São Paulo (tudo bem)

 

Veja se você gosta deste:

 

Amiga, das fraquezas desta vida,

das riquezas que perdi,

Sei que trazes escondida a felicidade esquecida

enquanto para mim menti.

 

Mas, querida, da verdade escondida

Enquanto fui infeliz,

Guardei, na amizade, a vida;

nos amores, a paz perdida -

e dos que não tive, és o que eu quis!

 

PS² Escrevi a lápis por significar que nada é imutável, tudo se apaga, se renova

 

*Estava eu a procurar meus textos do curso de agosto de 2002, sobre a tragédia em si (grega, claro) e achei nossas cartas, da época em que éramos amigos, apenas amigos. Em alguns trechos que não transcrevi falávamos justamente de desconsolos e ciúmes. Achei um carta em que você se preocupava com a minha paixonite por um outro seminarista e outra em que eu contava que não havia ficado com aquele engenheiro de Marília no carnaval...Mas, acima de tudo, achei nas cartas nós dois e o sentido que sempre quisemos dar à nossa vida. Achei os mesmos conflitos que ainda nos pegam. Achei o amor ainda no casulo da amizade. Achei, pasme você, HERÁCLITO!!! Você ainda não conhecia, mas já citava Heráclito. O que mais está em mim que é puramente invenção sua? Quem sou eu? Personagem criada para algum conto seu tal como Nietzsche dizia que poderíamos ser, ao contrário do Cogito Ergo Sum cartesiano? Moana que agora é uma sombra cálida junto aos passarinhos que só cantam nos cemitérios? Eu tento me reinventar, mas sou resultado puro e intenso da sua própria pessoa. Isso é aterrador. O que farei eu? Seu um dia formos duas almas divididas, não saberei qual perna será a minha, tal como a música do Chico Buarque, que, aliás, você me trouxe naquela fita cassete, gravada pelo Pe. Agenor.

Que medo! Acho que sou igual a Sofia, do Mundo de Sofia, uma personagem inventada por você! Cadê o filósofo que vai me ajudar a sair do livro? Hilde! Ajude-me! hahahahahaha

Eu também tinha 15 anos na época! As cartas começaram a chegar antes do meu aniversário de quinze anos! Você é o autor da minha vida? Não lhe dou mais tamanho poder!

Vou sair correndo dessas páginas para criar um livro meu! Oh! Não conseguirei! Peixes não respiram fora do aquário!

Fui!

 

Escrito por Mim às 11h32
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18/08/2008


Teiagonia da Tristeza

Era uma vez Saudade, senhora de andar forte e coração grande.

Saudade adorava rumar ao pé de laranjeira para chorar o coração doído dos que foram abandonados.

Era embaixo daquela sombra antes festeira que tentava se aprumar.  Era difícil. O Sol impedia que as trevas se achegassem ao seu coração.

Um dia encontrou-se com Solidão.

Eram agora partes de um todo.

Saudade e Solidão perambulavam em busca do Circo Mágico, pois sonhavam consultar o Oráculo Milenar.

Souberam desse Mago que podia fundi-las em uma só criatura. Não seriam partes distintas de um universo em movimento. Seriam apenas a lembrança de um lamento. Valia a pena tentar.

Depois de uma forte chuva perto do Caminho sem Fim, tomadas de cansaço que fazia perecer o melhor dos ânimos encontraram a Cigana Aliança. Essa moça do xale dourado e dentes postiços, que recendia a água de rosas nos pulsos e uva nos lábios, prometeu ajudar Solidão e Saudade.

Disse-lhes ser necessário pegar o Atalho dos Atabaques, que ficava atrás da Figueira Branca se quisessem conhecer o Oráculo antes que o fim do século chegasse.

Foram na charrete da Aliança ao trote da égua Cedreira.

O Sol esquentava o chão e estalava a madeira, enquanto Cedreira molemente içava o pescoço para frente como que tentando fugir do fardo que carregava.

No Lago da Imensidão apearam para poder se refrescar.

Conhecedora dos mistérios do Circo Mágico, Aliança disse que as duas haviam de se preparar para consultar o Mago Milenar.

Avisou:

- As duas têm que ser iguar a sombra do cajueiro: duas partes a combinar. Solidão não pode ser maior que a Saudade.

Elas ficaram a pensar, como podia a Saudade ser menor que a Solidão? Como Solidão podia ocupar o espaço que era da Saudade?

Não puderam entender. Apenas se olharam um olhar a contemplar.

A Cigana achou por bem pernoitar às margens da Imensidão para não serem pegas pela noite no Leito de Treva, um lugar muito escuro que ficava depois da Encruzilhada dos Escravos.

Tdoso tinham medo de cruzar esse lugar depois que o sol se punha.

Diziam que nem a Lua Cheia se atrevia a iluminar os recônditos desse leito mal dito. Houve os que tentaram e nada puderam contar.

Foi na Imensidão, lago que dava vazão aos olhares perdidos, que Solidão e Saudade puderam se contemplar.

Foi um olhar único, de uma só inteireza, quando as duas se uniram aspergiram Tristeza.

Da imagem dual, mal definida, surgia uma sombra tremida.

Chamaram o fato de Milagre do Mirante e ali ergueram um altar de pedra para Tristeza encontrar o seu lugar.

Aliança agora estava satisfeita, era hora do encontro com Milenar.

Foi no compasso de duas luas, uma cheia, outra minguante que chegaram ao circo.

Nesse dia, os arlequins foram embora perturbados pela Solidão e os palhaços não puderam trabalhar encantados pela Saudade.

Assim, o Mago Milenar achou por bem fazer o que era preciso para que a Tristeza não tivesse tempo de ali entrar.

Abriu sua tenda de céu estrelado, acendeu o candelabro de cobre e abraçou Solidão unindo-a à Saudade.

O abraço sufocante fê-las perder o ar. O Mago era agora um cordão apertado que espremia a essência das duas em um nó dilacerante.

Quando as duas sucumbiram em um desmaio, Milenar despertou.

Era ali no chão de terra batida que jaziam Saudade e Solidão.

Chocado com a angustiante experiência, escreveu o Mago no Pergaminho das Gerações: Saudade e Solidão ungidas em um só ser,  tornam-se o começo de seu próprio fim.

Enquanto isso, no Altar de Pedra, sem saber como a elas chegar, Tristeza busca por Solidão e Saudade, doida para nelas se abrigar.

Escrito por Mim às 14h50
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13/08/2008


Georgia

Nessa egocêntrica busca para encontrar quem sou e por que estou, deparo-me sempre com meu próprio umbigo. Preocupações pequeno-burguesas, ridículas. No entanto, tenho um profundo incômodo ao olhar o mundo à nossa volta. Principalmente quando sou obrigada a reconhecer que não faço nada, nada para torná-lo menos pior. Comprar algum sossego com pequenas doações às entidades assistenciais é paliativo. No Natal, resolvi pedir para cada pessoa que viesse em casa que trouxesse uma doação para as crianças com aids e ficam em um lar especial. Foi uma maneira de não sentir essa dor que volta e meia me assola e me deixa desconsolada. Me reconheço uma covarde criatura que não avança um passo em direção a fazer algo de bom para o outro. Não suporto pensar em quantas crianças têm suas infâncias roubadas enquanto eu apenas me preocupo com um bom colégio para meus filhos. Escrever é um exercício de escuta para mim mesma. Às vezes, fico a perguntar se minha pesquisa é de fato útil. Enquanto isso, civis são mortos pelos soldados russos na Georgia. Vou estudar física. Dói menos.

Escrito por Mim às 12h13
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12/08/2008


Soneto do Amor Total

Este soneto está aqui sem nenhum motivo especial. É um soneto, o que o torna bom. Está bem escrito e tem um final glorioso como penso que os sonetos devem ter. Estou ansiosa pelo congresso que começa amanhã, quarta-feira. Assim, não escrevo, não penso, não existo, não sinto. Leio.

SONETO DO AMOR TOTAL

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Vinicius de Morais

Escrito por Mim às 11h31
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05/08/2008


Simulações e Simulacros

 Morri. De uma forma que não conseguiria explicar. Morri e não há como ressuscitar. Morri e sou um simulacro vivendo simulações.

Verão a mesma pessoa de sempre. Mas, estou morta. Morta como uma personagem de ópera que demora vinte minutos para morrer e outros tantos para reconhecer que está morto.

Não pensem as minhas Ilusões que isso acontece pelas bobeiras faladas. Fiquem tranqüilas, Ilusões, há muito juramos não mais nos iludir. Minha Realidade matou-me. Minha teimosa mania de sentir demais e ter medo de não suportar o Engano.

Lego Engano esse o meu. Jurei-me abrir caminhos para poder respirar melhor e só encontro o emparedamento que acerca a mim e ao outro.

O que me sobra é o Espelho, a possibilidade de seguir sem olhar para trás, esquecendo de não me recordar do caminho.

Somos todos sopros de querubins que ludibriam os deuses. Fantoches de vontades e desesperos. E nos cremos humanos. Transformamo-nos em catadores de ilusões.

Riscamos um palácio de giz no chão e exigimos que ele seja tridimensional.

Diz o ditado que o que não nos mata, nos fortalece. Mas, o que dizer dos que se acreditam mortos?

Talvez estes consigam a redenção final que os liberte de seus simulacros e suas simulações. Aí então nesse dia, o casulo trágico se rompa e simplesmente um botão de rosa surja com suas pétalas a compor uma nova vida.

Escrito por Mim às 12h50
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31/07/2008


Astarté – A Estrela da Manhã

Astarté era uma menina que não sabia se queria virar mulher. 

Muito frágil, inocente, entregou todos os seus sonhos ao primeiro viajante que com ela conversou. Foi vendida a ele. O preço? Quase irrisório. Meia dúzia de estúpidas madrepérolas falsificadas. Virou sua serva. Tinha um nome bonito a escravidão, diziam-se apaixonados.

Astarté, que não conhecia os sinais do mundo, entendeu que não deveria questionar a ordem do peito, ficaria com seu viajante sempre.

Mas, o viajante queria ser solitário. Astarté entendia de solidão, só não tinha vocação para ser solitária. Achava triste o ruflar de asas dos pássaros vespertinos quando se estava só.

Ficou triste! A tristeza é como um ácido que corrói as paredes da ilusão e do amor. Astarté adoeceu. Seu ser era só noite escura sem lua. Havia uma constante névoa em seus olhos.

Quis ir embora. Desistiu. Não sabia qual das estradas que passava em frente ao seu rancho a levaria de volta para casa.

Perdeu-se entre devaneios e elucubrações. Pariu Esperança.

Esperança era magrinha. Nasceu como quem queria morrer. Mas, Esperança é a última que morre, assim foi através dessa mirrada menina que Astarté mais uma vez ficou.

Se não sarou por completo ficou menos amarelada essa Estrela da Manhã. Cuidava da Esperança por ser ela o fio de vida que a mantinha viva.

No entanto, para o Viajante, Esperança era uma prisão, uma carga que o mantinha em um transe constante de realidade.

Esperança era o elo do transparente oposto que se instalara entre os dois.

A Esperança começou a crescer. Olhos assustados, gestos meigos, olhar solitário.

Astarté se distanciava da porta do rancho e se fechava em si mesma. Silenciou seus murmúrios.

O Viajante era uma visita. Depois tornou-se uma sombra. Assombração nas noites de violenta exigência do corpo da Estrela da Manhã.

Astarté foi a mãe que gerou o Dia Mágico.

Foi nos olhos desse menino que Esperança encontrou seu rumo para deixar a casa da mãe e correr o mundo.

Dia Mágico deus forças à Estrela da Manhã que nem se lembrava de abrir a janela de sua casa, as portas já ficavam destrancadas.

Astarté, fortalecida por Esperança mostrava os pássaros vespertinos em sua constante partida para o filho, um fofo bebê que tinha o brilho da inconstância do pai nos olhos. Os pássaros ruflavam suas asas num intenso vir e ir de vôos rasantes por cima da casa de pau-a-pique e não deixavam rastro de solidão.

Conforme o Dia Mágico cresceu, Astaté fez da Saudade sua filha.

Saudade era gorda e grande. De olhos negros e lábios vermelhos, tinha os braços roliços e mãos macias.

Depois que a Saudade chegou, Astarté achou o caminho de volta para seu antigo lar.

Não conseguiu de volta os sonhos vendidos tão precocemente, mas talhou em uma antiga rocha da Estrada Real uma única promessa: encontrar sua mãe Felicidade.

Ninguém sabe ao certo do destino de Astarté. Há quem diga que ela é imortal e vaga, luminosa, pelas estradas. Os viajantes ainda a perseguem em nome de seu antigo companheiro, mas se perdem de seu caminho quando não rendem louvores à Estrela da Manhã.

Escrito por Mim às 17h20
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28/07/2008


Sobre a Amizade

 

Sábado não tinha nada para ser um dia diferente.

No entanto, foi um dos dias mais felizes da minha vida. Talvez pareça exagero, mas não é. Minha amiga Gisele depois de alguns desencontros veio até a minha casa.

Eu e a Gi somos amigas desde que tínhamos 5 anos. Escrevi sobre um encontro nosso nesse blog em janeiro. Desde que nos vimos no Wal Mart mantivemos contato. Volta e meia ligo para ela, mando um sms, até mesmo um email. Nunca esqueço um número de telefone de alguém importante para mim. Um dia desses, lembrei-me que era 9 de maio, aniversário de uma amiguinha de infância também. Senti vontade de ligar para ela e... lembrei-me do número da casa dela. Uma casa que não ligo desde 1988, ano em que me mudei do bairro onde éramos vizinhas. Mistérios de uma mente inquieta, de um coração que não suporta a miséria da solidão e do isolamento.

Isso não me faz um doce de pessoa. Muito pelo contrário. Sou azeda. Sou difícil de conviver. Mas, amo ter amigos. E valorizo isso. Tento cultivar ao máximo a manutenção da amizade.

Sendo assim, fiquei imensamente surpresa quando ao atender o telefone sábado ouvir alguém chamando-me por Maria. Inicialmente, pensei ser atendente de telemarketing, só depois reconheci a voz da Gisele avisando que viria à minha casa.

O motivo da visita era justamente para convidar-nos para sermos padrinhos do casamento dela com Tadashi.

Como fiquei feliz!

Quis escrever esse post justamente porque não sabia o quê fazer com a felicidade que senti. Minha amiguinha de tanto tempo! Que alegria poder compartilhar momentos tão importantes com alguém tão especial como a Gi foi.

Fica o singelo registro de algo tão importante para mim!

 

Escrito por Mim às 19h51
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25/07/2008


Sobre Deuses e Homens

“O  homem é o sonho de uma sombra, só quando os deuses lhe lançam o olhar é que ele se torna vida.”

Píndaro

Vi que novamente a Cris[1] ministrará um curso sobre literatura grega. Fico incomodadíssima com a possibilidade de não participar da edição desse ano. Sinto a mitologia e a filosofia grega como parte do meu ser. Tenho todas as anotações de cada curso que participei desde 2002.

De certa forma, o contato com a literatura helênica permitiu uma melhor compreensão da filosofia grega também, pois a tragédia teve seu desenvolvimento grandioso durante o período Clássico, o século V a.C, o século de Péricles.

Assim, a análise dos arquétipos desenvolvida por Jung também descortinam visões acerca da realidade que antes não possuía. Algo que os cursos têm de positivo é o fato de ter pessoas de várias áreas, principalmente psicólogos e psiquiatras.

O tema desse ano será: Dioniso e as Fronteiras do Eu. Percebo pelo título que há uma leitura mais psicológica na abordagem.

Conheço um pouco desse deus por causa da tragédia Bacas (BAKXAI), de Eurípides. Grande tradução do JAA Torrano. Edição Bilíngüe (grego/português). Foi uma das tragédias mais densas que estudamos. Mexe muito com as fronteiras da loucura. Essa é uma das grandes questões de Dionísio: levar os que o desprezam para fora de seus limites. O senso-comum trata-o como o deus do vinho e das bebedeiras. Dionísio é mais que isso. É aquele que traz o novo. Segundo alguns helenistas há uma relação entre os mistérios de Elêusis, Dionísio e a comunhão cristã. Aliás, havia um ritual chamado sparagmós e omofagia (sem h mesmo) que consistia em perseguir um novilho, desmembrá-lo e consumir sua carne ainda pulsante (sangue e corpo/vinho e pão). Havia também a oreibasia, corrida das mulheres pelas montanhas. Ritual fechado aos homens. A maioria da população masculina ficava curiosíssima tentando imaginar o que as mulheres faziam durante esse ritual.

Mas, é interessante que quando comecei a escrever pensava nas tragédias femininas (não que a Bacas não seja, afinal Agave degola seu próprio filho achando que este era um leão, cega que ficou por conta de Dionísio).  Pensava nas tragédias causadas principalmente pelas loucuras da desmedida (hýbris para os gregos).

Sou completamente fascinada pelo medo que todos os deuses têm pela força de Afrodite. Há fontes que asseguram que nem Zeus tinha coragem de desafiá-la. Vários dos grandes episódios gregos têm origem ou por causa de Afrodite, ou por causa de Ares (que é o deus da Guerra).

Vou justificar meu fascínio com um episódio.

Segundo uma das fontes (Teogonia do Hesíodo), Afrodite teria nascido do sêmen de Urano que caiu no mar quando foi castrado por seu filho Cronos que havia cansado de ver sua mãe Gaia ser coberta. Outra (Íliada de Homero) diz que é filha de Zeus e Dioni. Gosto mais da versão da Teogonia.

Já escrevi que o ideal de amor para o grego passa pelo erotismo. Logo, Afrodite (deusa com um toque oriental, também chamada de Astarté, a Estrela da Manhã) tem uma importância imensa, tanto quanto a guerra (Ares). Logo, não é de se estranhar que uma das grandes paixões da deusa do amor foi o deus da guerra.

E esse é um dos episódios mais fascinantes da mitologia em minha opinião.

Hefesto era marido de Afrodite, mas não se dava conta da grandeza da deusa. Era manco e não necessariamente belo. Vivia mais na Sicília. A deusa havia apaixonado-se por ele justamente por causa de suas artimanhas. Mas, Afrodite é passional e volúvel.

Sozinha, Afrodite passa a ver Ares com freqüência, o que os leva a um tórrido romance (e fico realmente pensando que deva ter sido algo fenomenal, a ponto de sacudir o Olimpo). Alectron era o responsável por vigiar a alcova para avisar quando Hélio (Sol) chegasse porque ele era o deus que tudo via. Uma das vezes Alectron dormiu e Hélio vê os amantes. Conta para Hefesto que se desespera e prepara uma vingança: exímio artesão que era, elabora uma rede de outro invisível e coloca na cama. Assim que os amantes se deitam são pegos.

Hefesto chama todos os deuses para verem a cena. No entanto, o que deveria ser vergonhoso torna-se ainda mais emblemático para Afrodite, pois muitos dos deuses ao verem-na nua apaixonam-se por ela.

Como castigo, Alectron foi transformado em galo, que avisa até hoje quando Hélio, o Sol, chega.

Quanto a Afrodite e Ares continuaram juntos por mais um tempo. O suficiente para fazer-nos perceber que em toda paixão há um embate. Afrodite nada mais é que o impulso erótico em busca do outro. Quanto mais visceral a paixão, mais forte é o embate (vide a Guerra de Tróia – esqueçam o horroroso filme Tróia, por favor). E mais sério o risco da desmedida, tão temida pelos gregos.

Nem preciso dizer que Hera, deusa protetora do casamento não era muito amiga de Afrodite. Justamente por não concordar com a vida pouco ortodoxa que a deusa levava.

Mas, ela é o impulso necessário para a Vida Humana.

Respeito Afrodite. Até porque não respeitá-la é atrair sua ira. Mesmo hoje, tempos distantes da glória grega, os deuses gregos dão o ar de sua graça. É bom não duvidar deles.
 
Paris Bordon (1500-1571) Hefesto surpreendendo Afrodite e Ares.

 

[1] Maria Cristina Franciscato, doutora em Literatura Grega Antiga (FFLCH-USP)

Escrito por Mim às 13h30
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