“O homem é o sonho de uma sombra, só quando os deuses lhe lançam o olhar é que ele se torna vida.”
Píndaro
Vi que novamente a Cris[1] ministrará um curso sobre literatura grega. Fico incomodadíssima com a possibilidade de não participar da edição desse ano. Sinto a mitologia e a filosofia grega como parte do meu ser. Tenho todas as anotações de cada curso que participei desde 2002.
De certa forma, o contato com a literatura helênica permitiu uma melhor compreensão da filosofia grega também, pois a tragédia teve seu desenvolvimento grandioso durante o período Clássico, o século V a.C, o século de Péricles.
Assim, a análise dos arquétipos desenvolvida por Jung também descortinam visões acerca da realidade que antes não possuía. Algo que os cursos têm de positivo é o fato de ter pessoas de várias áreas, principalmente psicólogos e psiquiatras.
O tema desse ano será: Dioniso e as Fronteiras do Eu. Percebo pelo título que há uma leitura mais psicológica na abordagem.
Conheço um pouco desse deus por causa da tragédia Bacas (BAKXAI), de Eurípides. Grande tradução do JAA Torrano. Edição Bilíngüe (grego/português). Foi uma das tragédias mais densas que estudamos. Mexe muito com as fronteiras da loucura. Essa é uma das grandes questões de Dionísio: levar os que o desprezam para fora de seus limites. O senso-comum trata-o como o deus do vinho e das bebedeiras. Dionísio é mais que isso. É aquele que traz o novo. Segundo alguns helenistas há uma relação entre os mistérios de Elêusis, Dionísio e a comunhão cristã. Aliás, havia um ritual chamado sparagmós e omofagia (sem h mesmo) que consistia em perseguir um novilho, desmembrá-lo e consumir sua carne ainda pulsante (sangue e corpo/vinho e pão). Havia também a oreibasia, corrida das mulheres pelas montanhas. Ritual fechado aos homens. A maioria da população masculina ficava curiosíssima tentando imaginar o que as mulheres faziam durante esse ritual.
Mas, é interessante que quando comecei a escrever pensava nas tragédias femininas (não que a Bacas não seja, afinal Agave degola seu próprio filho achando que este era um leão, cega que ficou por conta de Dionísio). Pensava nas tragédias causadas principalmente pelas loucuras da desmedida (hýbris para os gregos).
Sou completamente fascinada pelo medo que todos os deuses têm pela força de Afrodite. Há fontes que asseguram que nem Zeus tinha coragem de desafiá-la. Vários dos grandes episódios gregos têm origem ou por causa de Afrodite, ou por causa de Ares (que é o deus da Guerra).
Vou justificar meu fascínio com um episódio.
Segundo uma das fontes (Teogonia do Hesíodo), Afrodite teria nascido do sêmen de Urano que caiu no mar quando foi castrado por seu filho Cronos que havia cansado de ver sua mãe Gaia ser coberta. Outra (Íliada de Homero) diz que é filha de Zeus e Dioni. Gosto mais da versão da Teogonia.
Já escrevi que o ideal de amor para o grego passa pelo erotismo. Logo, Afrodite (deusa com um toque oriental, também chamada de Astarté, a Estrela da Manhã) tem uma importância imensa, tanto quanto a guerra (Ares). Logo, não é de se estranhar que uma das grandes paixões da deusa do amor foi o deus da guerra.
E esse é um dos episódios mais fascinantes da mitologia em minha opinião.
Hefesto era marido de Afrodite, mas não se dava conta da grandeza da deusa. Era manco e não necessariamente belo. Vivia mais na Sicília. A deusa havia apaixonado-se por ele justamente por causa de suas artimanhas. Mas, Afrodite é passional e volúvel.
Sozinha, Afrodite passa a ver Ares com freqüência, o que os leva a um tórrido romance (e fico realmente pensando que deva ter sido algo fenomenal, a ponto de sacudir o Olimpo). Alectron era o responsável por vigiar a alcova para avisar quando Hélio (Sol) chegasse porque ele era o deus que tudo via. Uma das vezes Alectron dormiu e Hélio vê os amantes. Conta para Hefesto que se desespera e prepara uma vingança: exímio artesão que era, elabora uma rede de outro invisível e coloca na cama. Assim que os amantes se deitam são pegos.
Hefesto chama todos os deuses para verem a cena. No entanto, o que deveria ser vergonhoso torna-se ainda mais emblemático para Afrodite, pois muitos dos deuses ao verem-na nua apaixonam-se por ela.
Como castigo, Alectron foi transformado em galo, que avisa até hoje quando Hélio, o Sol, chega.
Quanto a Afrodite e Ares continuaram juntos por mais um tempo. O suficiente para fazer-nos perceber que em toda paixão há um embate. Afrodite nada mais é que o impulso erótico em busca do outro. Quanto mais visceral a paixão, mais forte é o embate (vide a Guerra de Tróia – esqueçam o horroroso filme Tróia, por favor). E mais sério o risco da desmedida, tão temida pelos gregos.
Nem preciso dizer que Hera, deusa protetora do casamento não era muito amiga de Afrodite. Justamente por não concordar com a vida pouco ortodoxa que a deusa levava.
Mas, ela é o impulso necessário para a Vida Humana.

[1] Maria Cristina Franciscato, doutora em Literatura Grega Antiga (FFLCH-USP)




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