Possibilidades


25/07/2008


Sobre Deuses e Homens

“O  homem é o sonho de uma sombra, só quando os deuses lhe lançam o olhar é que ele se torna vida.”

Píndaro

Vi que novamente a Cris[1] ministrará um curso sobre literatura grega. Fico incomodadíssima com a possibilidade de não participar da edição desse ano. Sinto a mitologia e a filosofia grega como parte do meu ser. Tenho todas as anotações de cada curso que participei desde 2002.

De certa forma, o contato com a literatura helênica permitiu uma melhor compreensão da filosofia grega também, pois a tragédia teve seu desenvolvimento grandioso durante o período Clássico, o século V a.C, o século de Péricles.

Assim, a análise dos arquétipos desenvolvida por Jung também descortinam visões acerca da realidade que antes não possuía. Algo que os cursos têm de positivo é o fato de ter pessoas de várias áreas, principalmente psicólogos e psiquiatras.

O tema desse ano será: Dioniso e as Fronteiras do Eu. Percebo pelo título que há uma leitura mais psicológica na abordagem.

Conheço um pouco desse deus por causa da tragédia Bacas (BAKXAI), de Eurípides. Grande tradução do JAA Torrano. Edição Bilíngüe (grego/português). Foi uma das tragédias mais densas que estudamos. Mexe muito com as fronteiras da loucura. Essa é uma das grandes questões de Dionísio: levar os que o desprezam para fora de seus limites. O senso-comum trata-o como o deus do vinho e das bebedeiras. Dionísio é mais que isso. É aquele que traz o novo. Segundo alguns helenistas há uma relação entre os mistérios de Elêusis, Dionísio e a comunhão cristã. Aliás, havia um ritual chamado sparagmós e omofagia (sem h mesmo) que consistia em perseguir um novilho, desmembrá-lo e consumir sua carne ainda pulsante (sangue e corpo/vinho e pão). Havia também a oreibasia, corrida das mulheres pelas montanhas. Ritual fechado aos homens. A maioria da população masculina ficava curiosíssima tentando imaginar o que as mulheres faziam durante esse ritual.

Mas, é interessante que quando comecei a escrever pensava nas tragédias femininas (não que a Bacas não seja, afinal Agave degola seu próprio filho achando que este era um leão, cega que ficou por conta de Dionísio).  Pensava nas tragédias causadas principalmente pelas loucuras da desmedida (hýbris para os gregos).

Sou completamente fascinada pelo medo que todos os deuses têm pela força de Afrodite. Há fontes que asseguram que nem Zeus tinha coragem de desafiá-la. Vários dos grandes episódios gregos têm origem ou por causa de Afrodite, ou por causa de Ares (que é o deus da Guerra).

Vou justificar meu fascínio com um episódio.

Segundo uma das fontes (Teogonia do Hesíodo), Afrodite teria nascido do sêmen de Urano que caiu no mar quando foi castrado por seu filho Cronos que havia cansado de ver sua mãe Gaia ser coberta. Outra (Íliada de Homero) diz que é filha de Zeus e Dioni. Gosto mais da versão da Teogonia.

Já escrevi que o ideal de amor para o grego passa pelo erotismo. Logo, Afrodite (deusa com um toque oriental, também chamada de Astarté, a Estrela da Manhã) tem uma importância imensa, tanto quanto a guerra (Ares). Logo, não é de se estranhar que uma das grandes paixões da deusa do amor foi o deus da guerra.

E esse é um dos episódios mais fascinantes da mitologia em minha opinião.

Hefesto era marido de Afrodite, mas não se dava conta da grandeza da deusa. Era manco e não necessariamente belo. Vivia mais na Sicília. A deusa havia apaixonado-se por ele justamente por causa de suas artimanhas. Mas, Afrodite é passional e volúvel.

Sozinha, Afrodite passa a ver Ares com freqüência, o que os leva a um tórrido romance (e fico realmente pensando que deva ter sido algo fenomenal, a ponto de sacudir o Olimpo). Alectron era o responsável por vigiar a alcova para avisar quando Hélio (Sol) chegasse porque ele era o deus que tudo via. Uma das vezes Alectron dormiu e Hélio vê os amantes. Conta para Hefesto que se desespera e prepara uma vingança: exímio artesão que era, elabora uma rede de outro invisível e coloca na cama. Assim que os amantes se deitam são pegos.

Hefesto chama todos os deuses para verem a cena. No entanto, o que deveria ser vergonhoso torna-se ainda mais emblemático para Afrodite, pois muitos dos deuses ao verem-na nua apaixonam-se por ela.

Como castigo, Alectron foi transformado em galo, que avisa até hoje quando Hélio, o Sol, chega.

Quanto a Afrodite e Ares continuaram juntos por mais um tempo. O suficiente para fazer-nos perceber que em toda paixão há um embate. Afrodite nada mais é que o impulso erótico em busca do outro. Quanto mais visceral a paixão, mais forte é o embate (vide a Guerra de Tróia – esqueçam o horroroso filme Tróia, por favor). E mais sério o risco da desmedida, tão temida pelos gregos.

Nem preciso dizer que Hera, deusa protetora do casamento não era muito amiga de Afrodite. Justamente por não concordar com a vida pouco ortodoxa que a deusa levava.

Mas, ela é o impulso necessário para a Vida Humana.

Respeito Afrodite. Até porque não respeitá-la é atrair sua ira. Mesmo hoje, tempos distantes da glória grega, os deuses gregos dão o ar de sua graça. É bom não duvidar deles.
 
Paris Bordon (1500-1571) Hefesto surpreendendo Afrodite e Ares.

 

[1] Maria Cristina Franciscato, doutora em Literatura Grega Antiga (FFLCH-USP)

Escrito por Mim às 13h30
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22/07/2008


Querido Diário?

Preciso ir à agência de viagens. Preciso pagar nossas passagens aéreas. Preciso mostrar para a moça que não sou apenas um blefe. Vamos para Natal. De avião. Como eu sonhei quando menina. Vamos para Natal. Ainda não é a Europa. Vou participar de um Congresso. Internacional. Vou com meu artigo para ser publicado. Participarei da mesa debatedora. Não vou apenas assistir. Vou expor o que estudei. Preciso ir lá. É só pegar o carro e ir. Não fui. Corro o risco de perder a vaga no ônibus que a UNESP arrumou para irmos até o aeroporto. Falei para a tal moça que iria hoje, às 14h. Não fui. Não levantei-me do sofá. Li. Heráclito e Erich Fromm repartiram entre si minha vaga atenção. Não fiz o que devia. Escrevi para o professor Cláudio que farei a matéria dele nesse semestre. Escrevi meu currículo. Liguei para o Adenil, para combinarmos de conversarmos amanhã. Às 14h. Preciso de um comprovante dele para comprovar que fiz a disciplina. Mostrar que não sou um blefe. Estou com mais três crianças além das minhas. Respondo a tudo mecanicamente. Angustia-me não ter ido. Mas, não fui. Me pergunto o porquê, o motivo que pregou meu traseiro no sofá como uma cola permanente. Medo. Medo de conseguir realizar minimamente meus sonhos. Quanta mediocridade! Vago pelas páginas da internet e sinto que essa rede não é de aracnídeo. É de vampiro. Há um drácula em cada w digitado. Não estou falando com ninguém pelos comunicadores instantâneos. Mas, minha energia flui frente à tela de cristal líquido do meu laptop. Flui e eu me odeio por isso. Não estudei francês hoje. Não fui, não fiz, não senti. Estou com a sensação de que escorro entre meus próprios dedos. Não sou, nem estou. Preciso acordar da hipnose feita por mim mesma. Pagar a passagem. Voltar a existir.

Escrito por Mim às 17h56
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21/07/2008


Notas de um ser

As palavras nos traem muitas vezes. E atraem. O texto permite a aproximação de almas espaçadas. As palavras podem servir de maquiagem para as cicatrizes que a vida nos deixa.

Escrevo para conseguir elucidar a névoa que construo sobre meu ser cada vez que não consigo olhar-me sinceramente no espelho.

Nem bem elaboro o senso do devir e já me pego observando o que está além do muro.

Que dia deixei meu medo de saltar de pára-quedas?

É fato que envelhecemos. E, ao contrário de todas as pessoas que conheço, estou ansiosa para ser idosa. Quem sabe assim torno-me ao menos sábia, já que a beleza nunca visitou meu ser.

Será agradável ouvir: que simpática velhinha! Ou talvez serei uma demoníaca senhora! Daquelas que infernizam a vida dos jovens...

Hoje escrevo livremente, sem um compromisso com qualquer tipo de metáfora literária. Escrevo para libertar-me da sensação que amarrei-me uma cadeira de onde não consigo desativar o nó. Poderia até começar com um "Querido Diário..."

Ah! Quisera eu ter o talento de Clarice Lispector para poder escrever asneiras metaforizadas em arte! A estética do cotidiano é facilmente conduzida ao medíocre quando escrita por mãos inábeis.

Mas, há um imenso rio heraclitiano (existe essa palavra?) que me conduz à constante mudança. Para que explicitar o que pode ser apenas insinuado? Acho que a percepção sobre quem somos e o que gostaríamos para nossas vidas passa justamente por isso. Estar, antes de mais nada. O Ser é transitório enquanto existência perene.

Algumas coisas duram mais que gostaríamos e isso eu gostaria de poder transcender. Sem hipocrisia, tormento ou dor.

Por enquanto é isso. Amanhã pode não ser.

Escrito por Mim às 19h22
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