Astarté era uma menina que não sabia se queria virar mulher.
Muito frágil, inocente, entregou todos os seus sonhos ao primeiro viajante que com ela conversou. Foi vendida a ele. O preço? Quase irrisório. Meia dúzia de estúpidas madrepérolas falsificadas. Virou sua serva. Tinha um nome bonito a escravidão, diziam-se apaixonados.
Astarté, que não conhecia os sinais do mundo, entendeu que não deveria questionar a ordem do peito, ficaria com seu viajante sempre.
Mas, o viajante queria ser solitário. Astarté entendia de solidão, só não tinha vocação para ser solitária. Achava triste o ruflar de asas dos pássaros vespertinos quando se estava só.
Ficou triste! A tristeza é como um ácido que corrói as paredes da ilusão e do amor. Astarté adoeceu. Seu ser era só noite escura sem lua. Havia uma constante névoa em seus olhos.
Quis ir embora. Desistiu. Não sabia qual das estradas que passava em frente ao seu rancho a levaria de volta para casa.
Perdeu-se entre devaneios e elucubrações. Pariu Esperança.
Esperança era magrinha. Nasceu como quem queria morrer. Mas, Esperança é a última que morre, assim foi através dessa mirrada menina que Astarté mais uma vez ficou.
Se não sarou por completo ficou menos amarelada essa Estrela da Manhã. Cuidava da Esperança por ser ela o fio de vida que a mantinha viva.
No entanto, para o Viajante, Esperança era uma prisão, uma carga que o mantinha em um transe constante de realidade.
Esperança era o elo do transparente oposto que se instalara entre os dois.
A Esperança começou a crescer. Olhos assustados, gestos meigos, olhar solitário.
Astarté se distanciava da porta do rancho e se fechava em si mesma. Silenciou seus murmúrios.
O Viajante era uma visita. Depois tornou-se uma sombra. Assombração nas noites de violenta exigência do corpo da Estrela da Manhã.
Astarté foi a mãe que gerou o Dia Mágico.
Foi nos olhos desse menino que Esperança encontrou seu rumo para deixar a casa da mãe e correr o mundo.
Dia Mágico deus forças à Estrela da Manhã que nem se lembrava de abrir a janela de sua casa, as portas já ficavam destrancadas.
Astarté, fortalecida por Esperança mostrava os pássaros vespertinos em sua constante partida para o filho, um fofo bebê que tinha o brilho da inconstância do pai nos olhos. Os pássaros ruflavam suas asas num intenso vir e ir de vôos rasantes por cima da casa de pau-a-pique e não deixavam rastro de solidão.
Conforme o Dia Mágico cresceu, Astaté fez da Saudade sua filha.
Saudade era gorda e grande. De olhos negros e lábios vermelhos, tinha os braços roliços e mãos macias.
Depois que a Saudade chegou, Astarté achou o caminho de volta para seu antigo lar.
Não conseguiu de volta os sonhos vendidos tão precocemente, mas talhou em uma antiga rocha da Estrada Real uma única promessa: encontrar sua mãe Felicidade.
Ninguém sabe ao certo do destino de Astarté. Há quem diga que ela é imortal e vaga, luminosa, pelas estradas. Os viajantes ainda a perseguem em nome de seu antigo companheiro, mas se perdem de seu caminho quando não rendem louvores à Estrela da Manhã.




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