Era uma vez Saudade, senhora de andar forte e coração grande.
Saudade adorava rumar ao pé de laranjeira para chorar o coração doído dos que foram abandonados.
Era embaixo daquela sombra antes festeira que tentava se aprumar. Era difícil. O Sol impedia que as trevas se achegassem ao seu coração.
Um dia encontrou-se com Solidão.
Eram agora partes de um todo.
Saudade e Solidão perambulavam em busca do Circo Mágico, pois sonhavam consultar o Oráculo Milenar.
Souberam desse Mago que podia fundi-las em uma só criatura. Não seriam partes distintas de um universo em movimento. Seriam apenas a lembrança de um lamento. Valia a pena tentar.
Depois de uma forte chuva perto do Caminho sem Fim, tomadas de cansaço que fazia perecer o melhor dos ânimos encontraram a Cigana Aliança. Essa moça do xale dourado e dentes postiços, que recendia a água de rosas nos pulsos e uva nos lábios, prometeu ajudar Solidão e Saudade.
Disse-lhes ser necessário pegar o Atalho dos Atabaques, que ficava atrás da Figueira Branca se quisessem conhecer o Oráculo antes que o fim do século chegasse.
Foram na charrete da Aliança ao trote da égua Cedreira.
O Sol esquentava o chão e estalava a madeira, enquanto Cedreira molemente içava o pescoço para frente como que tentando fugir do fardo que carregava.
No Lago da Imensidão apearam para poder se refrescar.
Conhecedora dos mistérios do Circo Mágico, Aliança disse que as duas haviam de se preparar para consultar o Mago Milenar.
Avisou:
- As duas têm que ser iguar a sombra do cajueiro: duas partes a combinar. Solidão não pode ser maior que a Saudade.
Elas ficaram a pensar, como podia a Saudade ser menor que a Solidão? Como Solidão podia ocupar o espaço que era da Saudade?
Não puderam entender. Apenas se olharam um olhar a contemplar.
A Cigana achou por bem pernoitar às margens da Imensidão para não serem pegas pela noite no Leito de Treva, um lugar muito escuro que ficava depois da Encruzilhada dos Escravos.
Tdoso tinham medo de cruzar esse lugar depois que o sol se punha.
Diziam que nem a Lua Cheia se atrevia a iluminar os recônditos desse leito mal dito. Houve os que tentaram e nada puderam contar.
Foi na Imensidão, lago que dava vazão aos olhares perdidos, que Solidão e Saudade puderam se contemplar.
Foi um olhar único, de uma só inteireza, quando as duas se uniram aspergiram Tristeza.
Da imagem dual, mal definida, surgia uma sombra tremida.
Chamaram o fato de Milagre do Mirante e ali ergueram um altar de pedra para Tristeza encontrar o seu lugar.
Aliança agora estava satisfeita, era hora do encontro com Milenar.
Foi no compasso de duas luas, uma cheia, outra minguante que chegaram ao circo.
Nesse dia, os arlequins foram embora perturbados pela Solidão e os palhaços não puderam trabalhar encantados pela Saudade.
Assim, o Mago Milenar achou por bem fazer o que era preciso para que a Tristeza não tivesse tempo de ali entrar.
Abriu sua tenda de céu estrelado, acendeu o candelabro de cobre e abraçou Solidão unindo-a à Saudade.
O abraço sufocante fê-las perder o ar. O Mago era agora um cordão apertado que espremia a essência das duas em um nó dilacerante.
Quando as duas sucumbiram em um desmaio, Milenar despertou.
Era ali no chão de terra batida que jaziam Saudade e Solidão.
Chocado com a angustiante experiência, escreveu o Mago no Pergaminho das Gerações: Saudade e Solidão ungidas em um só ser, tornam-se o começo de seu próprio fim.
Enquanto isso, no Altar de Pedra, sem saber como a elas chegar, Tristeza busca por Solidão e Saudade, doida para nelas se abrigar.




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