Possibilidades


26/08/2008


Teogonia (de Hesíodo)

Uma das obras mais densas da Literatura Grega do período homérico e que mais me encantou foi a Teogonia do escritor Hesíodo (aproximadamente 700 a.C). A forma como ele narra os nascimentos das criaturas, inicialmente por cissiparidade, depois por relacionamentos, é impressionante! Até mesmo porque, segundo os gregos, eram as Musas que inspiravam esse conhecimento. E elas podiam inspirar tanto um conhecimento verdadeiro, quanto mentiras. O livro é ilegível sem um acompanhamento, pois a tradução tentou manter a essência dos dizeres gregos. Tive uma compreensão menos sofrível através da Cris (a já citada professora Dra. Maria Cristina Franciscato).

Há uma relação linda entre a literatura grega e o divino. Não o divino judaico-cristão que faz parte do nosso cotidiano, mas o Divino enquanto esfera de algo que está além de nossa compreensão mortal. Nada de perfeições de caráter e sim a busca pela justa medida, ainda que se corteje a loucura para chegar ao equilíbrio.

Interessante que em termos cronológicos, Hesíodo é mais ou menos próximo de Homero, portanto, ambos fazem parte da Epopéia. Neste período, todo poema épico começa com uma evocação dos deuses, das musas, pois o Aedo (poeta) não é considerado o autor do canto e sim veículo dessas musas. Como poderia um reles mortal escrever a Teogonia? Aliás, gonia vem do verbo gignomai que quer dizer vir a ser, nascer. Foi por isso que quando escrevi Teiagonia da Tristeza, foi uma forma de brincar com a minha (Téia) explicação de como teria nascido a Tristeza. É no lago dos arquétipos gregos que encontro explicações e explicações para o vir a ser, o nascimento de emoções e sensações que permeiam a complexidade humana em todas as suas variações e destemperos.

Uma das musas é Clio (Glória), a que dá revelações sobre História. Sou completamente apaixonada pela descrição do nascimento das musas. Elas foram geradas durante nove noites e Calíope (Belavoz) é quem acompanha "os reis venerandos", é a musa da poesia épica. Aliás, falando no nascimento delas, não dá para esquecer que são frutos da união de Zeus e Mnemosyne (Memória). Sim, mais uma pulada de cerca do Zeus.

Os quatro seres divinos originários são: Gaia (Terra), Tártaro, Eros e Caos.

Do Caos nasceram, por cissiparidade, Érebos e Noite (Nix).

Da Noite (Nix), filha do Caos, nascem por cissiparidade, Morte (Thánatos), Sono (Hýpnos), Sonhos (Óneiros), Escárnio (Mômos, personificação do sarcasmo), Miséria, Hespérides, Moiras, Sortes, Nêmesis, Engano, Amor (nada a ver com Afrodite), Velhice, Éris (a Discórdia).

Só nessa frase há mais poesia arquetípica que qualquer outro livro que venha a ser escrito. São os próprios sentimentos que são gerados a partir de uma entidade primordial. Os meus contos bebem disso, mas não trabalham com a mesma origem. As florestas e ranchos que Astarté e Solidão, Saudade e Tristeza permeiam são muito mais próximos. Talvez, sejam águas que corram dentro de mim. São espelhos de palavras, emoldurados a partir da busca pela compreensão do meu cotidiano.

Toda essa verborragia é fruto da minha ansiosa espera pelo segundo dia de curso sobre Êxtase e Entusiasmo - Dioniso e as Fronteiras do Eu. Semana passada, além do reencontro magnífico com o pessoal do curso de 2007, pude rever alguns sumidos de 2002, 2004. Eu estou lá. Que esteja sempre. Que os deuses e seus âmbitos permitam-me apreciar um pouco desse universo maravilhoso, ainda que não dure para sempre. E Evoé (é um brinde ao Deus do Vinho e das Tragédias - Dioniso).

Escrito por Mim às 10h10
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25/08/2008


A Carta

Bragança Paulista, 17 de fevereiro de 1992.

Querida Ester,

Que a paz do Senhor Jesus esteja contigo!

Espero que esta carta te encontre com saúde e inquietude!

A tua carta me veio dois dias após o envio. Fiquei não tanto surpreso, porém feliz. Estava com uma gripe muito forte (talvez fosse o ar de Bragança). Normalmente penso que as cartas contém as únicas palavras imortais enquanto não se as queima.

A viagem transcorreu normalmente, tive um pouco de enjôo, mas tudo bem...Chegamos aqui pelas dez e meia. Passamos pela livraria (estávamos de carro) e fomos para o Seminário. A casa estava no mesmo lugar e os matos cresceram; é interessante notar como tudo muda. E mudaram também as pessoas: teu tio foi mesmo para São Paulo!

Até agora a convivência tem sido muito boa! Oxalá assim continue! Esse é um dos maiores problemas dos seminários.

(...)

As palavras, enquanto escrevo, parece que saem de algum ponto dentro de mim; como se você estivesse agora me ouvindo e imaginando a respeito do que escrevo. Além do tempo e do espaço estão as palavras, entretanto, somente as palavras vivas que viajam além do conhecimento por estarem não carregadas de significados, mas de sentimentos.

Depois lhe conto mais novidades.

Um abração do seu amigo Emerson.

 

PS: Acho que o computador vai mesmo para São Paulo (tudo bem)

 

Veja se você gosta deste:

 

Amiga, das fraquezas desta vida,

das riquezas que perdi,

Sei que trazes escondida a felicidade esquecida

enquanto para mim menti.

 

Mas, querida, da verdade escondida

Enquanto fui infeliz,

Guardei, na amizade, a vida;

nos amores, a paz perdida -

e dos que não tive, és o que eu quis!

 

PS² Escrevi a lápis por significar que nada é imutável, tudo se apaga, se renova

 

*Estava eu a procurar meus textos do curso de agosto de 2002, sobre a tragédia em si (grega, claro) e achei nossas cartas, da época em que éramos amigos, apenas amigos. Em alguns trechos que não transcrevi falávamos justamente de desconsolos e ciúmes. Achei um carta em que você se preocupava com a minha paixonite por um outro seminarista e outra em que eu contava que não havia ficado com aquele engenheiro de Marília no carnaval...Mas, acima de tudo, achei nas cartas nós dois e o sentido que sempre quisemos dar à nossa vida. Achei os mesmos conflitos que ainda nos pegam. Achei o amor ainda no casulo da amizade. Achei, pasme você, HERÁCLITO!!! Você ainda não conhecia, mas já citava Heráclito. O que mais está em mim que é puramente invenção sua? Quem sou eu? Personagem criada para algum conto seu tal como Nietzsche dizia que poderíamos ser, ao contrário do Cogito Ergo Sum cartesiano? Moana que agora é uma sombra cálida junto aos passarinhos que só cantam nos cemitérios? Eu tento me reinventar, mas sou resultado puro e intenso da sua própria pessoa. Isso é aterrador. O que farei eu? Seu um dia formos duas almas divididas, não saberei qual perna será a minha, tal como a música do Chico Buarque, que, aliás, você me trouxe naquela fita cassete, gravada pelo Pe. Agenor.

Que medo! Acho que sou igual a Sofia, do Mundo de Sofia, uma personagem inventada por você! Cadê o filósofo que vai me ajudar a sair do livro? Hilde! Ajude-me! hahahahahaha

Eu também tinha 15 anos na época! As cartas começaram a chegar antes do meu aniversário de quinze anos! Você é o autor da minha vida? Não lhe dou mais tamanho poder!

Vou sair correndo dessas páginas para criar um livro meu! Oh! Não conseguirei! Peixes não respiram fora do aquário!

Fui!

 

Escrito por Mim às 11h32
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