Uma das obras mais densas da Literatura Grega do período homérico e que mais me encantou foi a Teogonia do escritor Hesíodo (aproximadamente 700 a.C). A forma como ele narra os nascimentos das criaturas, inicialmente por cissiparidade, depois por relacionamentos, é impressionante! Até mesmo porque, segundo os gregos, eram as Musas que inspiravam esse conhecimento. E elas podiam inspirar tanto um conhecimento verdadeiro, quanto mentiras. O livro é ilegível sem um acompanhamento, pois a tradução tentou manter a essência dos dizeres gregos. Tive uma compreensão menos sofrível através da Cris (a já citada professora Dra. Maria Cristina Franciscato).
Há uma relação linda entre a literatura grega e o divino. Não o divino judaico-cristão que faz parte do nosso cotidiano, mas o Divino enquanto esfera de algo que está além de nossa compreensão mortal. Nada de perfeições de caráter e sim a busca pela justa medida, ainda que se corteje a loucura para chegar ao equilíbrio.
Interessante que em termos cronológicos, Hesíodo é mais ou menos próximo de Homero, portanto, ambos fazem parte da Epopéia. Neste período, todo poema épico começa com uma evocação dos deuses, das musas, pois o Aedo (poeta) não é considerado o autor do canto e sim veículo dessas musas. Como poderia um reles mortal escrever a Teogonia? Aliás, gonia vem do verbo gignomai que quer dizer vir a ser, nascer. Foi por isso que quando escrevi Teiagonia da Tristeza, foi uma forma de brincar com a minha (Téia) explicação de como teria nascido a Tristeza. É no lago dos arquétipos gregos que encontro explicações e explicações para o vir a ser, o nascimento de emoções e sensações que permeiam a complexidade humana em todas as suas variações e destemperos.
Uma das musas é Clio (Glória), a que dá revelações sobre História. Sou completamente apaixonada pela descrição do nascimento das musas. Elas foram geradas durante nove noites e Calíope (Belavoz) é quem acompanha "os reis venerandos", é a musa da poesia épica. Aliás, falando no nascimento delas, não dá para esquecer que são frutos da união de Zeus e Mnemosyne (Memória). Sim, mais uma pulada de cerca do Zeus.
Os quatro seres divinos originários são: Gaia (Terra), Tártaro, Eros e Caos.
Do Caos nasceram, por cissiparidade, Érebos e Noite (Nix).
Da Noite (Nix), filha do Caos, nascem por cissiparidade, Morte (Thánatos), Sono (Hýpnos), Sonhos (Óneiros), Escárnio (Mômos, personificação do sarcasmo), Miséria, Hespérides, Moiras, Sortes, Nêmesis, Engano, Amor (nada a ver com Afrodite), Velhice, Éris (a Discórdia).
Só nessa frase há mais poesia arquetípica que qualquer outro livro que venha a ser escrito. São os próprios sentimentos que são gerados a partir de uma entidade primordial. Os meus contos bebem disso, mas não trabalham com a mesma origem. As florestas e ranchos que Astarté e Solidão, Saudade e Tristeza permeiam são muito mais próximos. Talvez, sejam águas que corram dentro de mim. São espelhos de palavras, emoldurados a partir da busca pela compreensão do meu cotidiano.
Toda essa verborragia é fruto da minha ansiosa espera pelo segundo dia de curso sobre Êxtase e Entusiasmo - Dioniso e as Fronteiras do Eu. Semana passada, além do reencontro magnífico com o pessoal do curso de 2007, pude rever alguns sumidos de 2002, 2004. Eu estou lá. Que esteja sempre. Que os deuses e seus âmbitos permitam-me apreciar um pouco desse universo maravilhoso, ainda que não dure para sempre. E Evoé (é um brinde ao Deus do Vinho e das Tragédias - Dioniso).![]()




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