Possibilidades


10/09/2008


Cartas de Natal II

Natal, 6 de setembro de 2008.

Este não é meu quarto. Estou no saguão do hotel sentindo-me como quem tivesse nascido há poucos dias.

Fiz coisas nesses últimos seis dias que não fiz durante toda a minha vida.

Deixei o medo e a covardia fora da minha visão de mundo como metáfora para uma nova vida quando aterrissar no cotidiano.

Os peixes que vi no fundo do mar mudaram minha percepção do que é vida. Aprender a respirar pela boca para poder utilizar o snorkel, nadar com peixinhos, admirar os corais... momentos que trouxeram uma pessoa que eu desconhecia. Ou que eu havia esquecido que existia.

Ver as dunas, sentir o vento quase me arrancar do buggy a cada descida veloz, acordaram em mim a paixão por viver. Gostar de estar viva, viver apaixonadamente... há muito tempo que me sentia um zumbi.  

Ousei até beber. E não fiquei bêbada. Levarei como lembrança desse singular momento a pinga que mais gostei: Cravo e Canela. Ia de barraca em barraca na feira do artesanato degustando a pinga. No Cactus tomei todos os dias uma caipirinha que era brinde. Meia noite caminhávamos na praia.

Tenho essa liberdade dentro de mim que é perene. Poder vivenciá-la é algo que me permite expandir os meus marizontes. Fazer do cotidiano uma viagem para que eu me reconheça enquanto ser para o devir. Em um eterno por enquanto.

Escrito por Mim às 14h38
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08/09/2008


Cartas de Natal

Natal, 1° de setembro de 2008.

Lançarei um livro intitulado Cartas de Hotel. Hahahahah. Sempre que estou em um quarto de hotel tenho essa vontade imensurável de escrever. Tenho memórias, registros escritos e narrativos de Itararé, Dois Córregos, Jaú  e agora Natal.

Nem sempre estou em férias. Mesmo aqui em Natal estou com a cabeça nos passeios e a outra no trabalho que vou apresentar.

Fui à praia? Sim. Passeamos pelo calçadão à tarde de ontem, um domingo com uma brisa adorável e um sol gostoso. Não entrei no mar. Estava cansada demais para isso. Mas, gosto da brisa que Natal tem.

Voltamos à praia durante a noite. Gosto da imagem noturna do mar, essa imensidão que nos desafia, que nos dá a consciência de nossa pequenez. Fomos em um grupo divertido, pessoas interessantes. As meninas eu já conhecia das aulas do Adenil. Cláudio e Cat foram as gradáveis surpresas que permitiram ser a noite ainda melhor.

Meus filhos não vieram. Foi difícil sentir-me feliz com uma viagem que significa tanto sacrifício para minha mãe e os meus pequenos. Meus irmãos Rita e Fernando me ajudaram. Houve um tempo em que soube de muito perto o que é solidão. A dor da solidão, a Angústia da solidão, a dureza da solidão. Ficaram cicatrizes que me dizem que não posso pedir ajuda a ninguém. Mas, penso que em alguns momentos a vida nos brinda com surpresas que nem sempre acreditamos existir.

Fernando e Rita se organizaram para ficar com minha mãe e, conseqüentemente, com as crianças. Senti algo surreal quando minha irmã veio com uma imensa sacola de roupas dizendo-me que se ao menos ela não viajava, que fossem as roupas hahahahah!

Agora estou aqui, com essa vista linda em que vejo o mar com sua espuma branca quebrando na areia. As palmeiras imperiais agitam-se molemente em meio aos carros, enquanto eu, alheia aos raios do sol que queimam lá fora,  escrevo em minha mesa de trabalho. Deveria revisar meu texto, editar o vídeo que vou apresentar, mas sou seduzida e tragada por esse pedido que vem do meu âmago e me pede para fotografar com palavras visões, sensações e sentimentos que esse momento produz em mim.

Sairemos para um passeio logo mais às onze e meia. São onze horas e ainda não pus biquíni, nem arrumei as coisas. Estou hipnotizada por este momento em que há uma total simbiose entre o que vejo, sinto e escrevo.  A escrita faz isso comigo: torna-me parte introspectiva  de um processo que até então era uma parte extensa a mim.Com a escrita há a intensidade do momento vivido multiplicado por milhões de segundo, como se cada minuto tivesse um contar diferente do tempo existencialmente aplicado ao cotidiano.

Assim, nos minutos que transcorreram desde o primeiro parágrafo do texto até agora, fui deixando de ser simplesmente Maria Ester para tornar-me uma com esse universo que nunca conseguirei definir plenamente. Simplesmente Mar ia.

Escrito por Mim às 14h59
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